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Ilustrada com uma foto da ministra Nísia Trindade preocupada, com as mãos em frente ao rosto, uma reportagem da revista Veja no último final de semana estampou: “irregularidade” relacionada à Trindade estaria “elevando a temperatura” no Ministério da Saúde.
A ex-presidente da Fiocruz entrou na berlinda dos ministros de Lula depois da publicação de uma reportagem da Folha sobre a cobiça do PP pelo Ministério da Saúde. Segundo o texto, em que nenhuma fonte fala abertamente, o presidente da Câmara, Arthur Lira, estaria negociando um apadrinhado no lugar de Trindade. A Saúde perigaria ir para o Centrão.
A Veja tentou engrossar o caldo resgatando um problema antigo. Ligou Nísia Trindade a um processo administrativo que obrigou a Fiocruz a devolver R$ 11 milhões ao Ministério da Justiça por não cumprir os requisitos de uma pesquisa encomendada e paga pela pasta. A Controladoria-Geral da União constatou irregularidade, segundo a reportagem. O valor nunca foi devolvido. “O caso provavelmente passaria despercebido se não fosse um detalhe: entre as autoridades apontadas como responsáveis pelas irregularidades está Nísia Trindade”, diz a Veja.
No Intercept, porém, o caso nunca passou despercebido. E explicamos: por trás de mais essa tentativa de fritura da ministra está a guerra às drogas. A “irregularidade” é uma disputa metodológica – e ideológica.
Em 2019, contamos como o 3º Levantamento Nacional Domiciliar sobre o Uso de Drogas, uma pesquisa nacional contratada em 2014 e concluída em 2016, foi censurada pela Secretaria Nacional de Política de Drogas. Em 2017, o então ministro Osmar Terra, um dos maiores defensores da guerra às drogas e da internação compulsória de dependentes, criticou: “Não sei onde a Fiocruz faz suas pesquisas, mas eles insistem em dizer que não há uma epidemia de drogas no Brasil”.
O levantamento apontava, por exemplo, que apenas 0,9% da população havia usado crack alguma vez, 0,3% no último ano e apenas 0,1% nos últimos 30 dias. No mesmo período, maconha, a droga ilícita mais consumida, havia sido usada por 1,5%. Pesquisadores ouvidos por nós foram unânimes em dizer que, embora preocupantes, os índices estavam longe de representar o que o governo, sobretudo Osmar Terra, chamava de “epidemia”.
No estudo, a Fiocruz usou a mesma metodologia da Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar, do IBGE, para ouvir 16.273 pessoas em 351 cidades. A amostra era o dobro do levantamento anterior, feito em 2005 pelo Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas. A pesquisa da Fiocruz mostrou, pela primeira vez, os padrões de consumo dos municípios rurais e da faixa de fronteira do país. E investigou o uso de 10 tipos ou categorias de drogas ilícitas, além de tabaco e cigarro.
Mas o levantamento foi embargado. O governo disse que a metodologia “não atendeu aos requisitos do edital”, por não permitir “a comparação dos resultados com o primeiro e o segundo levantamentos”.
Depois da nossa reportagem, o caso foi parar até no Jornal Nacional. Terra disse que “a Fiocruz tem o viés de defender a liberação das drogas”, deixando claro que discordou dos resultados do levantamento. A Fiocruz defendeu com veemência a sua metodologia. Na época, publicamos a pesquisa censurada na íntegra.
Em 2021, o Ministério da Justiça contratou sem edital outro grupo para fazer um novo levantamento. A um custo de R$ 12 milhões e com uma descrição questionável do trabalho – com várias etapas custando o mesmo valor, até os centavos – a pesquisa foi encomendada à Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas, vinculada à Unifesp.
O grupo é liderado pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira, conhecido defensor da internação compulsória, das comunidades terapêuticas e da existência de uma epidemia de drogas. Também é dono de uma clínica para “casos complexos em dependência química”. Nós contamos essa história no Intercept.
Agora, não surpreende que a ministra Nísia Trindade, a primeira mulher a ocupar o cargo, fosse a próxima na linha de tentativa de frituras turbinadas por especulação. Mas usar uma suposta “irregularidade” como essa é uma enorme distorção que conta só parte da história.
Trata-se de uma guerra de evidências que vai subsidiar a política de drogas no país e movimenta indústrias milionárias com muitos contratos públicos e ligação com políticos. Não por acaso, a indústria de clínicas antidrogas explodiu nos últimos anos, especialmente após a sanção da Política Nacional de Drogas (criada por, veja só, Osmar Terra) em 2019. Foram meio bilhão de reais despejados em comunidades terapêuticas. Haja “epidemia” para justificar.
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