
A extrema direita segue avançando no mundo. Nesta semana, um palhaço extremista que minimiza os horrores da ditadura militar e promete aniquilar o estado saiu vencedor das eleições na Argentina. Na Holanda, um populista racista e xenófobo que ataca abertamente os islâmicos chamando Maomé de “estuprador” e o islamismo de “abrigo de estupradores” também foi eleito.
No ano passado, a extrema direita não foi reeleita no Brasil por muito pouco, mas elegeu uma enorme base parlamentar e se consolidou como uma das principais forças políticas do país. Na Itália, Giorgia Meloni, herdeira política de Mussolini, tornou-se primeira-ministra. Na Alemanha, a AFD, grupo político herdeiro do nazifascismo de Hitler, cresce a cada eleição e hoje representa a segunda principal força política do país. Nos EUA, Donald Trump não se reelegeu, mas já aparece como forte favorito para o pleito do ano que vem.
Em todos esses países, a fórmula eleitoral utilizada pela extrema direita é sempre a mesma: lideranças populistas se aproveitam de crises políticas e econômicas dos seus países para apresentar um discurso antissistema e oferecer soluções mágicas calcadas em pautas morais específicas de cada país. Quase sempre temos à frente das candidaturas extremistas um sujeito falastrão, inconsequente, que mobiliza o ódio do eleitorado apelando para as questões morais. A direita tradicional está sendo engolida pelos extremistas no mundo inteiro.
O radicalismo que até pouco tempo atrás era algo restrito, sem força e até motivo de chacota — vide a trajetória do deputado Jair Bolsonaro —, agora se consolida como uma vertente política importante.
A rebeldia histriônica desses líderes extremistas tem seduzido o eleitorado jovem, que não se sente representado pelos partidos tradicionais e tende a abraçar iconoclastas da pior espécie. O populismo autoritário soube cooptar essa faixa da população se aproveitando da sua decepção com a democracia e com o medo proveniente de uma série de crises globais (econômica, política, climática, sanitária).
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Uma pesquisa feita em 30 países do mundo mostra que os jovens entre 18 e 35 anos são o grupo etário que menos acredita na democracia. Apenas 57% deles acreditam que a democracia é preferível a qualquer outra forma de governo. 42% acreditam que o regime militar é uma boa forma de governar o país, enquanto 35% apoiariam um líder forte que não respeite o Poder Legislativo e não preze por eleições livres.
Os jovens insatisfeitos com a democracia se sentem atraídos pela rebeldia performática da extrema direita. Ocorre que, muitas vezes, o discurso antissistema é só um discurso. Milei, por exemplo, venceu a eleição prometendo erradicar “as castas”, mas já está de mãos dadas com elas. Quando eleitos, esses tipos podem até tentar subverter a democracia, mas sempre com o objetivo de manter os privilégios dos ricos e reduzir o poder do estado a pó. O status quo das elites permanece intacto e quem perde invariavelmente são aqueles que dependem dos serviços públicos oferecidos pelo Estado. Não é à toa que, em todos esses países, a extrema direita conta com apoio de setores importantes do grande capital.
A história nos mostra que, em tempos de crises agudas, essa insatisfação da população com a democracia é sempre instrumentalizada pela extrema direita e nunca pela extrema esquerda — que também tem caráter antissistema e discurso revolucionário. Isso se deve justamente pelo fato da extrema direita contar com o apoio das elites, enquanto a extrema esquerda pretende erradicá-las. O extremismo de direita sempre foi uma possibilidade legítima para o grande capital em tempos de crise. A ascensão do nazismo na Alemanha nos anos 1930, por exemplo, não teria acontecido sem o apoio maciço dos grandes capitalistas.
Em alguns países, a extrema direita consegue subverter a democracia e implantar seus sonhos autoritários, como é o caso da Hungria de Viktor Orbán, que cassou licenças de grupos de mídia, corrompeu o Supremo Tribunal do país e se mantém de maneira autoritária no poder há 13 anos. Em outros, como no Brasil, eles causam estragos graves, mas não conseguem implantar suas autocracias e acabam se acomodando no jogo político.
Apesar do discurso revolucionário, a extrema direita, apoiada no grande capital, também pode usar as instituições liberais a seu favor sem necessariamente golpear a democracia. O fato é que a democracia não é um princípio inegociável para a extrema direita. Se não for possível subvertê-la por completo, ela pode ser usada para atender suas pautas morais e proteger o grande capital.
Quase sempre temos à frente das candidaturas extremistas um sujeito falastrão, inconsequente, que mobiliza o ódio do eleitorado apelando para as questões morais.
A extrema direita sempre esteve presente na política, acomodada nas fileiras dos partidos de direita e centro-direita. Bolsonaro é um exemplo. Quando as crises estouram, eles aparecem como novos messias para salvar a direita. Em linhas gerais, a direita e a extrema direita têm muitas pautas em comum: a defesa do livre mercado, da austeridade fiscal, das privatizações e do Estado mínimo. Tanto para os políticos da direita tradicional como para seus eleitores, não é tão difícil trocar de barco em tempos de tempestade. A afinidade está dada.
No Brasil, Bolsonaro está inelegível, mas o bolsonarismo está vivíssimo e governando estados importantes do país. A extrema direita fagocitou a direita tradicional com facilidade e chegará forte nas próximas eleições presidenciais. Apesar de ser autoritário e golpista, o bolsonarismo está consolidado como um ator legítimo dentro da disputa política do país e conta com apoio de parte relevante da população.
Entre erros e acertos, o atual governo mostra-se comprometido com a defesa das instituições e os valores democráticos, contrastando fortemente com o governo anterior. Mas, ao fim do primeiro ano do mandato de Lula, pesquisas mostram que, pela primeira vez, a avaliação negativa do governo superou a positiva.
A comunicação continua sendo um setor em que a extrema direita continua ganhando de goleada. E, como vimos na última eleição, mais ou menos metade do eleitorado está disposta a abraçar novamente o bolsonarismo. O sinal de alerta está aceso mais do que nunca.
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