A lotação do estádio Sports City, o maior do Líbano, com capacidade para 50 mil pessoas, prenunciava a grandiosidade dos acontecimentos daquela tarde de domingo. Chegamos ao local por volta do meio-dia. Ao entrar no estádio, era impossível não se emocionar com a multidão uníssona de homens e mulheres de todas as idades entoando o coro ‘’Nabbeyk Nasrallah’’, que pode ser traduzido como ‘’estamos ao seu serviço, à sua disposição, Nasrallah’’. Elas estavam ali para o funeral de Hassan Nasrallah, ex-líder do grupo armado xiita libanês Hezbollah.
Nasrallah foi morto em setembro de 2024 em uma série de bombardeios israelenses que atingiram o subúrbio sul de Beirute, Dahiyeh, bastião do Hezbollah na capital libanesa. Na ocasião, Israel lançou mais de 85 toneladas de bombas sobre a área.
O atraso na realização do evento fúnebre, que aconteceu quase cinco meses depois do assassinato do líder, se explica pela falta de segurança no Líbano causada pelos incessantes bombardeios israelenses ao país.
Como habitual, a mídia tradicional conduziu uma cobertura seletiva do evento, preocupando-se em reiterar a classificação do Hezbollah como grupo “extremista”, retratando a mobilização civil massiva em torno do líder como uma espécie de surto coletivo e reduzindo a cerimônia à uma aglomeração de “terroristas”.
A cobertura midiática hegemônica do evento ignorou as tradições muçulmanas xiitas e o fato de que os simpatizantes do Hezbollah compõem uma parte significativa da população libanesa.
Ao colocar os centenas de milhares de presentes no funeral na posição de “massa de manobra’” do grupo armado e não de detentores da sua própria identidade política e religiosa que os alinha ideologicamente a Nasrallah e ao Hezbollah, a mídia contribui para a desumanização dessas pessoas e para a reiteração de justificativas para as atrocidades israelenses cometidas contra elas no Líbano.
A diversidade de indivíduos presentes no evento por si só contrapõe essa narrativa. A despedida de Nasrallah mobilizou civis para muito além dos estereótipos em torno do homem árabe-muçulmano tradicional, associado tantas vezes na mídia ocidental a atividades ‘’terroristas’’.
No evento – não só no estádio mas posteriormente na avenida por onde passou a procissão fúnebre – haviam crianças, adolescentes, idosas e até uma brasileira cristã prestando suas homenagens ao líder político.
“Ele é a razão pela qual temos coragem de lutar por nosso país. Ele nos deu suporte e esperança de que o Líbano continuará vivo”, me disse a Maria Mortadah, de 15 anos.
À frente do grupo armado por mais de três décadas, Nasrallah se tornou uma figura central no imaginário dos simpatizantes do Hezbollah, transcendendo o papel de mero líder.
Sob seu comando e orientação, o grupo se firmou no Líbano como uma força de resistência contra a ocupação israelense e contra a influência imperialista na região. Para muitos de seus apoiadores, ele representa um bastião contra interferências externas de caráter neocolonial no Oriente Médio.
Hassan Nasrallah assumiu o cargo de secretário-geral do Hezbollah em 1992, cerca de dez anos após a criação da organização, que surgiu como uma resposta à invasão israelense ao Líbano em 1982.
Antes dele, gerações inteiras de libaneses ainda não conheciam o sul do Líbano, ocupado por Israel até o ano 2000. Uma parcela relevante da população libanesa atribui a ele, portanto, um papel fundamental – tanto do ponto de vista estratégico quanto moral – na retirada das tropas israelenses do país, marcando o fim de quase duas décadas de ocupação na virada do século.
Por isso, para aqueles que acreditam na resistência representada pelo Hezbollah como a única forma de liberação do território libanês e da defesa da causa palestina na região, existe um Oriente Médio pré e outro pós-Nasrallah.
Roseane Coutinho Macedo, brasileira cristã de 38 anos que vive no Líbano há três anos, comentou sobre o respeito que Nasrallah conquistou mesmo entre aqueles que não compartilham de sua fé. “Eu sou cristã, convivo com muitos cristãos, e vejo que todo mundo tem um carinho pelo Sayyed Hassan, pelo caráter dele, por suas ações’’, ela me contou.
Lágrimas e orações
Na fé islâmica xiita, morrer por uma causa justa, ou seja, tornar-se um mártir, significa transformar a morte de um em uma promessa de vida para os tantos outros que sustentam a mesma causa.
Para aqueles que se vêem ameaçados pela presença israelense no Líbano e que acreditam na liberação do povo árabe-muçulmano em relação à influência sionista na região, o legado deixado por Nasrallah é capaz de transformar gerações, mover exércitos exauridos e consolar mães que enlutam seus filhos, mortos nas sucessivas guerras com Israel.
Ser um mártir é ter acolhimento certo nos braços do divino, e deixar no mundo terreno orgulho, força, resiliência. O luto islâmico xiita é embalado neste tom e, portanto, diametralmente oposto ao luto que nos é familiar no mundo ocidental.
Ao longo de todo o evento, essa fé e devoção à figura de Nasrallah se manifestaram em rituais repletos de sacralidade como os discursos e rezas, mas também em expressões humanas, físicas e triviais de emoção: lágrimas, cânticos, e a luta dos presentes para se espremer na multidão e se aproximar do caixão do líder.
As pessoas que disputavam o mesmo espaço durante a procissão fúnebre buscavam uma última oportunidade de se despedir daquele que, para eles, atribuiu um sentido sagrado às catástrofes, mortes e destruição causadas por Israel no país.
“É um orgulho para nós que Hassan [Nasrallah] tenha se levantado contra os maiores tiranos do mundo, Israel, e os EUA’’, me disse Mervat Mansour, uma senhora de meia idade que acompanhava o funeral.
A comoção coletiva no funeral escancarou a dualidade de sentimentos em torno do martírio de Nasrallah: de um lado, o luto e a dor da perda de um líder; de outro, a ressignificação de sua morte como um chamado à continuidade da resistência contra a ocupação israelense, que parece estar longe do fim.
Israel continua descumprindo o prazo para sua retirada completa do sul do Líbano, mantendo presença militar em pontos estratégicos dentro do território libanês.
Pelo acordo de cessar-fogo assinado 27 de novembro de 2024, a retirada israelense deveria ter sido concluída até 26 de janeiro de 2025, mas a relutância israelense em cumprir integralmente o compromisso levou à prorrogação do prazo para 18 de fevereiro. Ainda assim, a desocupação total não ocorreu.
Um dia antes do funeral, Israel bombardeou o sul do Líbano alegando estar impedindo o tráfico de armas, em mais um episódio de transgressão ao acordo de cessar-fogo.
Durante a cerimônia de Nasrallah, caças israelenses sobrevoaram Beirute em formação sincronizada, em nova flagrante violação do espaço aéreo libanês, e ainda sob a mesma vigência teórica do cessar-fogo. A aparição israelense gerou reação dos fiéis, que gritaram “morte à Israel!”.
Israel Katz, ministro da Defesa da Israel, justificou a provocação como uma mensagem clara para ‘’qualquer um que ameace destruir Israel’’.
No final da tarde de domingo, o caixão de Nasrallah chegou ao último ponto da procissão que deixou o estádio na capital libanesa em direção ao bairro de Borj El Brajneh, onde foi enterrado.
O sol se punha em Beirute enquanto soldados do Hezbollah e outros fiéis – muitos aos prantos – baixavam o caixão. Era o fim do funeral, e o fim de uma era. No entorpecimento das emoções dos presentes, um única certeza: a fé na resistência como sustentação para o futuro doLíbano sem Nasrallah.
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