O ministro do STF Cristiano Zanin marcou para o fim deste mês o julgamento em que se decidirá se abre ação penal contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete denunciados por conspirarem contra a democracia. Diante da qualidade e da quantidade de provas que sustentam a denúncia, não existe a menor chance de ela não ser acolhida. Isso significa que está chegando o dia em que o país poderá saborear a manchete: “Bolsonaro e outros sete viram réus por golpe de Estado”.
Começará, então, a fase da instrução processual, em que novas provas podem ser coletadas, testemunhas serão ouvidas e os réus, interrogados. Acusação e defesa apresentarão seus argumentos e, após essa fase, o STF finalmente decidirá o destino dos réus. Por tudo o que se viu até agora, o desfecho inevitável será a condenação dos golpistas à prisão. E aí teremos um dia histórico para a democracia brasileira: o dia em que finalmente enquadramos o golpismo e rechaçamos a anistia aos golpistas.
À medida que a denúncia avança, o desespero de Bolsonaro e sua gangue golpista aumenta. O projeto de lei para anistiar os golpistas, chamado de PL da Anistia, virou uma tábua de salvação narrativa. O campo político é o único em que o bolsonarismo pode jogar, já que, no jurídico, a derrota parece inevitável. Mesmo sabendo que se trata de um projeto natimorto, que inevitavelmente será derrubado no STF, Bolsonaro está bastante empenhado pela sua aprovação.
Nos últimos dias, o ex-presidente intensificou a campanha pela aprovação do PL da Anistia e até se reuniu com presidentes de partidos do Centrão como Gilberto Kassab, do PSD, Ciro Nogueira, do PP, e Antônio Rueda, do União Brasil. Há grande chance do projeto ser aprovado na Câmara, mas isso não afetará a inelegibilidade de Bolsonaro ou mudará os rumos da denúncia no STF.

A luta pela anistia serve exclusivamente para manter a base eleitoral bolsonarista acesa e unida contra o inimigo. Ela é o gancho, por exemplo, para a manifestação que Bolsonaro convocou para este domingo, 16, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Segundo o ex-presidente, além da defesa da anistia, o ato terá outros motes como “Fora Lula 2026″, liberdade de expressão, segurança e custo de vida. Essa miscelânea de pautas ajuda a escamotear o que de fato é a manifestação: mais um ataque dos golpistas ao STF e à democracia.
Os bolsonaristas querem uma foto da praia de Copacabana lotada para voar o mundo e tentar causar constrangimento aos juízes do STF. Em mais um de seus devaneios, Flávio Bolsonaro afirmou que essa manifestação será “o movimento mais importante pelo resgate da democracia no Brasil”. O senador afirmou que a intenção é enviar um “recado ao mundo” sobre os “perseguidos políticos” no Brasil.
Uma manifestação grandiosa seria importante para aumentar o apoio da extrema-direita neofascista internacional e, principalmente, de Donald Trump. Jair Bolsonaro previu inicialmente que levaria 1 milhão de pessoas de Copacabana, mas, nesta semana, reduziu a expectativa para 500 mil pessoas. O fato é que o bolsonarismo está preocupadíssimo com o fracasso de público do ato.
A depender dos números dos últimos eventos convocados por Bolsonaro, a tão sonhada foto pode não rolar. Em 2022, em plena campanha presidencial, cerca de 65 mil pessoas compareceram à praia de Copacabana no feriado de Sete de Setembro. No ano passado, o número de manifestantes caiu pela metade: 32 mil. O bolsonarismo ainda é uma força eleitoral, mas não tem mais conseguido encher as ruas como antes.
O risco de um ato esvaziado neste domingo é enorme e virou foco de debates entre os líderes bolsonaristas. Para evitar o fracasso de público, parlamentares do PL, partido do ex-presidente, e governadores aliados de outras siglas estão sendo convocados a comparecer em peso. Se a tão sonhada fotografia de impacto não acontecer, a narrativa de que há um clamor popular pela anistia aos envolvidos nos ataques do 8 de janeiro sofrerá um golpe duríssimo.
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Tarcísio de Freitas, Cláudio Castro e Jorginho Mello confirmaram presença no ato, mas nem todos os governadores convocados estão dispostos a embarcar nessa canoa furada. Ratinho Jr e Caiado, por exemplo, já confirmaram que não irão à manifestação, apesar de serem a favor de anistiar os golpistas.
Assim como os atos anteriores, a manifestação em Copacabana está sendo organizada, custeada e abençoada pelo pastor Silas Malafaia, o magnata neopentecostal oficial do bolsonarismo. Ele está armando um show melodramático com a presença de familiares dos presos do 8 de janeiro no palanque.
Nas últimas semanas, Bolsonaro e aliados têm intensificado as publicações com vídeos de mulheres e idosos que foram presos e perderam contato com suas famílias. A aposta na narrativa de que os golpistas são coitadinhos que se perderam em um “domingo no parque” é o grande trunfo do bolsonarismo para levar gente para as ruas.
Podem colocar 10 milhões de pessoas em Copacabana que nada evitará o fracasso do PL da Anistia e a condenação dos golpistas. A manifestação será um termômetro da força política de Bolsonaro, mas não reverterá o seu destino judicial.
As provas contra os golpistas são tão volumosas e robustas que as “narrativas” já não têm mais o mesmo poder de mobilização de antes. O ato convocado por Bolsonaro é um ato de desespero de quem está vendo tudo desmoronando ao seu redor.
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