
Observem as duas imagens abaixo: a primeira é um print de uma matéria publicada no site da Folha de S.Paulo em 12 de agosto, e a segunda, um post no Instagram do mesmo jornal, em 8 de setembro.


A diferença entre elas é gritante. Comecemos pela primeira: no site, tanto o título quanto a linha-fina parecem brincar de esconde-esconde: omite-se o nome da Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo, a Sefaz, subordinada diretamente ao governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos. O texto claudicante esvazia o vínculo político e institucional, como se a corrupção tivesse brotado sozinha, sem hierarquia ou comando.
O caso de Artur Gomes da Silva Neto, auditor acusado de liderar o esquema de propina dentro da Sefaz, é exemplar: nas páginas da Folha, ele surge como um personagem isolado, quase sem chefe. Já o governador, quando citado, não aparece como parte de um sistema falho sob sua gestão, mas sim como a figura poderosa que surge para resolver o problema. Uma operação estratégica que, longe de ser neutra, redesenha responsabilidades, protege e afaga o mandatário, nome mais cotado para assumir o posto vago de Jair Bolsonaro. É o que vemos na matéria publicada em 16 de agosto.

Resultado: quando tem corrupção no governo Tarcísio, ele vira herói. Volto a falar sobre isso.
Pois bem, vamos agora à imagem que mostra o presidente Lula em um evento na Favela do Moinho. O presidente esteve ali, na região central de São Paulo, para assinar um acordo no qual as famílias daquela comunidade receberão R$ 250 mil para comprar uma casa – destes, R$ 180 mil serão subsidiados pelo governo federal e R$ 70 mil pelo governo do estado.
Mas vocês certamente não leram sobre a notícia positiva, e sim que suspeitas – suspeitas – de tráfico estavam no mesmo palco que o presidente. A imprensa comercial, aliás, fez a festa com esse caso:

Associar Lula ao tráfico quando ele aperta a mão de pessoas suspeitas do crime e não associar Tarcísio à corrupção quando seus subordinados desviavam mais de R$ 1 bilhão, com todo processo documentado pelo Ministério Público paulista, é só uma mostra de um carinho muito especial que a Folha desenvolveu pelo governador que almeja o executivo federal.
Assim, em meio à avalanche de provas sobre o escândalo bilionário envolvendo fraudes na Sefaz, a Folha de S.Paulo, assim como o UOL, optou por uma cobertura marcadamente contida em relação ao governador Tarcísio de Freitas. Melhor: transformou, como dito, o que poderia ser altamente danoso em escada para transformá-lo em paladino da justiça.
Sim, o mesmo cara que dias depois da descoberta do esquema estava na Avenida Paulista, no 7 de setembro, fazendo cosplay de Bolsonaro e dizendo que não acreditava nessa mesma justiça. Em tempo: o Metrópoles também está na campanha pró-candidato da Faria Lima e publicou essa pérola aqui: “PT usa escândalo de Ultrafarma para colar corrupção em Tarcísio”.
É claro que a corrupção pode acontecer sob o desconhecimento de qualquer gestor – o auditor Artur Gomes atuava no departamento de fiscalização da secretaria da Fazenda desde 2018, por exemplo (além dele, o auditor Marcelo de Almeida Gouveia e mais quatro funcionários, também são investigados). O desvio de mais de um bilhão do erário público não tem, até que se prove o contrário, qualquer envolvimento com o governador.
Mas é revelador que títulos como “Governo de SP afasta mais seis auditores fiscais após caso Ultrafarma e Fast” (via UOL, reproduzido por diversos veículos) existiram sem menção alguma à postura ou responsabilidade política de Tarcísio.
Em raros momentos em que sua figura emergiu — como na matéria “Vagabundo tem que ser tratado com rigor” — a cobertura reproduziu palavras fortes que o colocam, como dito, como um guerreiro anti-corrupção, de maneira completamente positiva. A retórica contrasta com a ausência de questionamentos consistentes sobre sua liderança ou responsabilidade institucional no caso. Bem diferente quando o incumbente é Luiz Inácio, cujo nome já foi parar em manchetes como a que vemos aqui:

A cobertura ampliada sobre o escândalo é, na Folha, sintética e tecnocrática. Houve e há foco, como vimos, na abertura de frentes de trabalho e medidas administrativas, reproduzindo o discurso do governo sem aprofundar nem tensionar o processo.
Restou aos veículos de linha mais progressista destacar com mais clareza o alcance político do escândalo, em textos como “Escândalo bilionário expõe fragilidade do governo Tarcísio no combate à corrupção”. Esse tipo de abordagem faltou ao “jornalismo profissional” que a Folha proclama realizar, ou seja, faltou o olhar crítico à figura central do poder. Faltou não, vamos evitar o Polianismo: evitou-se. Afinal, “corrupção” é, para a empresa, quase sempre coisa da esquerda.
Nesse sentido, vale dizer que, quando o governo federal também protagonizou, em agosto passado, uma grande investigação contra o PCC – da qual fizeram parte diversos ministérios públicos ao redor do país, incluindo o de SP – a Folha noticiou essa manchetinha aqui:

Até a ombudsman do jornal estilou e criticou essa distorção em sua análise semanal.
Eu leio e só penso naquele clássico do cancioneiro popular: “é o amoooooooooooor”
(…)
Um padrão editorial
Esse love da Folha por determinados políticos – e ódio exarcebado por outros – não é novo. Aescritora e tradutora Marilene Felinto já escreveu em diversos textos (e ainda falou nesta ótima entrevista para Natália Viana, da Agência Pública) sobre a ojeriza que o ex-editor da Folha de S.Paulo, Otávio Frias Filho (morto em 2018) nutria pela figura do atual presidente do Brasil: “o Lula foi eleito em 2002 e eu fui acusada pelo Otávio de fazer campanha para o Lula. E o jornal fazia campanha clara para o Serra. Ele odiava o Lula, pessoa física. Então todo o ódio dele contra o Lula se expressou ali naquela coisa contra mim”. Marilene saiu do jornal por conta dessa coluna aqui.
O que estamos diante é do reflexo de um padrão editorial que preserva, por omissão ou distanciamento, a figura do gestor quando há evidências de crise — especialmente quando esse gestor controla estruturas de mídia ou tem vinculação política com segmentos influentes.
Ainda que o leitor da Folha receba informações sobre afastamentos de auditores e reformulação de processos, o que falta é uma análise sobre quem definiu/propôs essas mudanças e com que entrelinhas políticas — uma atitude que inscreva Tarcísio de Freitas como protagonista político e, precisamente por isso, como alvo inevitável da crítica jornalística.
Mas, é claro, isso não vai acontecer.
Com Bolsonaro fora do jogo e o governador de São Paulo avançando nas alianças, vale redobrar o olhar sobre Freitas e expor os exercícios retóricos que o jornalismo comercial brasileiro já está realizando. Por exemplo, depois do 7 de setembro, teve gente dizendo que o fluminense revelou sua verdadeira face e finalmente se mostrou ser de extrema direita raiz.
No podcast O Assunto, para citar um caso, um episódio analisando o discurso do gestor na Avenida Paulista (no qual atacou o ministro do STF Alexandre de Moraes) foi intitulado “A metamorfose de Tarcísio de Freitas”.
Metamorfose, galera? O cara que aplaude e ratifica a polícia extremamente letal de Derrite? O secretário de segurança pública também poupado, com o chefe, de um escândalo de corrupção envolvendo um agente da polícia civil que cobrava R$ 400 mil de cafetões e outras figuras do crime? Sob a gestão de Tarcísio de Freitas, a letalidade policial em São Paulo aumentou 60,2% de 2023 para 2024, com 737 mortes pela Polícia Militar em 2024, contra 396 em 2022. Também houve aumento de 15,5% nos homicídios na capital paulista no primeiro semestre de 2025, em comparação ao mesmo período de 2024 — o maior número para o semestre desde 2021.
Agora, o terrível assassinato de Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil, executado em Praia Grande, desmente as promessas de segurança de Tarcísio de Freitas ao mesmo tempo que serve de combustível para que a imprensa coloque tanto o governador quanto Derrite como heróis.
É o amooooooooooooorrrrrrrrrrr (…)
P.S. É preciso registrar que, no mesmo O Assunto dedicado ao assassinato de Ruy Ferraz, o professor Rafael Alcadipani, da FGV-SP, fez uma dura crítica ao secretário Derrite, que obviamente se antecipou ao declarar para a imprensa que já havia prendido um suspeito poucas horas após o crime. “É completamente inadequado, não é coisa de uma polícia séria em nenhum lugar do mundo”, disse ele, apontando que a pressa em dar uma resposta para a população tem relação com a possível candidatura de Tarcísio de Freitas. Ele ainda criticou o fato de Derrite não aceitar ajuda da Polícia Federal, oferecida por meio do ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski.
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