Aeródromo da família Piquet pode ter sido peça de plano de fuga de Bolsonaro

A pista da fuga?

Aeródromo da família Piquet pode ter sido peça de plano de fuga de Bolsonaro

Cartas Marcadas

Parte 23

Cartas Marcadas é uma newsletter semanal que investiga a ascensão da extrema direita, as ameaças à democracia e os bastidores do poder em Brasília.


O texto abaixo foi publicado originalmente na newsletter Cartas Marcadas, enviada na terça-feira, 25 de novembro.

Na edição desta semana, não podemos falar de outra coisa que não a prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro após a tentativa de violação da tornozeleira eletrônica.

Como você já sabe, a avaliação enviada pela Polícia Federal ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, apontou risco concreto de fuga e levou à ordem de detenção imediata.

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A decisão se baseou no entendimento de que Bolsonaro já não estava sob controle suficiente das medidas cautelares e que havia, sim, indícios de preparo para escapar.

Desde sábado, dediquei minhas horas a investigar quais poderiam ser os possíveis planos de fuga do ex-capitão. Não por especulação, mas porque essa pergunta passou a orientar também o trabalho da PF.

Que caminhos reais estavam ao alcance imediato de Bolsonaro? E que estruturas poderiam ser usadas em uma eventual tentativa de evasão? Vamos aos fatos.


O aeródromo da família Piquet

Durante o esforço de apuração desta reportagem, descobri que a própria Polícia Federal passou a reexaminar informações para tentar reconstruir o que poderia ter sido um plano de fuga. Entre essas pistas, estavam informações idênticas a de um relato que chegou até mim em agosto de 2025.

Na ocasião, uma moradora do condomínio de Bolsonaro, o Solar de Brasília, no bairro do Jardim Botânico, disse que vizinhos temiam que um aeródromo privativo da família Piquet, a cerca de 200 metros do condomínio, fosse cogitado como peça de um plano de fuga.

Mapa mostra proximidade de pista de pouso da família Piquet de condomínio de Bolsonaro

À época, procurei integrantes da PF para tentar confirmar a possibilidade e ouvi, de uma fonte do departamento, um categórico: “Chance zero”. Como a hipótese realmente parecia esdrúxula, já que agentes da PF cercavam a residência do ex-presidente, o assunto morreu ali.

Com a prisão consumada e a suspeita de que a vigília bolsonarista na porta do condomínio pudesse servir para criar tumulto e atrasar uma ação policial para deter a fuga, a hipótese reapareceu na mesa.

Desta vez, não como fofoca de vizinhança, mas como elemento considerado pela própria PF. A mesma fonte do Departamento de Inteligência Policial, que antes havia negado a chance de uma fuga pela pista dos Piquet, confirmou que o aeródromo “entrou no radar” da corporação após o episódio da tornozeleira.

A PF, inclusive, estaria estudando diligências no local, levantamento de imagens e a eventual oitiva do proprietário, Geraldo Piquet Souto Maior, irmão de Nelson Piquet, tricampeão mundial da Fórmula 1 e aliado de primeira hora de Bolsonaro.

A pista de pouso e decolagem em questão, chamada simplesmente de Piquet, tem registro vigente na Agência Nacional de Aviação Civil, a Anac, como aeródromo privado. Ele fica localizado na borda do condomínio de Bolsonaro, imediatamente atrás da antiga Hípica Lago Sul, terreno que pertenceu à família Piquet até 2016.

Segundo documentos oficiais da Anac, trata-se de uma pista asfaltada de 590 metros de comprimento por 18 metros de largura, com autorização para operação visual diurna e noturna, equipada com iluminação de borda e farol de aeródromo.

A pista, caso estivesse em perfeitas condições, seria adequada para monomotores e bimotores leves, comuns na aviação executiva privada, e plenamente operacional para helicópteros, que independem de extensão para decolagem.

Depois da publicação inicial da reportagem, moradores da região procuraram o Intercept para relatar que o aeródromo Piquet tem operado de forma bastante reduzida nos últimos meses, com parte da antiga pista tomada pelas obras do empreendimento imobiliário Reserva Jardim Botânico.

Imagens recentes de satélite confirmam a presença do stand de vendas e de novas vias bloqueando um trecho da pista mais próximo ao condomínio Solar de Brasília. Apesar disso, o espaço remanescente segue tecnicamente utilizável para operações de helicópteros, que não dependem de pista longa para decolar ou pousar.

Documento obtido pelo Intercept Brasil nos dados da Agência Nacional de Aviação Civil

O responsável pela pista, Geraldo Piquet, mantém uma longa trajetória como piloto. Em entrevista publicada por uma revista especializada, ele conta que pilota “diferentes aeronaves”, e que sempre buscou “testar limites” para sentir a liberdade durante os voos.

As redes sociais de Geraldo reforçam essa identidade: vídeos mostram acrobacias sobre Brasília, voos de helicóptero e pousos e decolagens que parecem ocorrer na própria pista Piquet.

Esse repertório, somado ao histórico aeronáutico da família e à localização estratégica da pista em relação ao Solar de Brasília, explica o interesse renovado da PF em verificar a hipótese.

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Questionei Geraldo Piquet sobre a possibilidade de uso do aeródromo em um eventual plano de fuga e se ele havia sido procurado por autoridades policiais nas últimas horas. Até o momento, não houve resposta. Também pedi uma nota oficial à PF, mas não tive retorno.

A relação entre Bolsonaro e Nelson Piquet é digna de nota. A visita do ex-piloto ao ex-presidente durante a prisão domiciliar, em 5 de novembro, autorizada por Alexandre de Moraes, reforça a hipótese.

Nos últimos anos, Piquet foi um dos mais visíveis apoiadores de Bolsonaro, dirigindo o Rolls-Royce presidencial no 7 de Setembro e participando de manifestações públicas em sua defesa.

Por ora, não há qualquer prova de que Bolsonaro tenha utilizado o aeródromo ou de que alguma movimentação real tenha sido feita em direção à pista. A apuração busca esclarecer se a estrutura chegou a ser cogitada, mesmo que informalmente, como rota de fuga.

As próximas etapas podem incluir análise de imagens, varredura de registros, inspeção técnica da pista e a oitiva de Geraldo Piquet, caso haja avanço para diligências formais.

ATUALIZAÇÃO (25 de novembro às 16h55): a reportagem foi alterada para incluir informações mais detalhadas sobre as atuais condições do aeródromo.


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